Não conseguimos respirar ou um pouco de possível, senão sufocamos, são duas máximas que podem ser lidas como gritos de protesto dos inconscientes dos corpos estrangulados pelos golpes de mata-leão que configuram as realidades das desigualdades brasileiras nos dias de hoje.  No Brasil, a combinação da pandemia sanitária e do pandemônio político asfixiam muitos até a morte – seja ela social, econômica, cultural ou mesmo a morte biológica propriamente dita, como os milhares de mortos diários no país não nos deixam mentir. Para tentar continuar respirando, muitos de nós se viram obrigados a transferir as atividades cotidianas realizadas offline para ambientes online. A adoção das indispensáveis medidas de distanciamento social evidenciou a divisão da população brasileira entre o  povo com e sem telas ao demonstrar que também somos o país da desigualdade digital. Nesse contexto, a implementação da chamada educação remota promovida pelo sistema de educação pública no Brasil impôs, sobretudo no nível da educação básica, uma série de desafios políticos pedagógicos que apenas acentuaram os riscos inerentes às práticas de inclusão pela exclusão, enfrentados diariamente pela escola pública brasileira, a exemplo do próprio Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos – CIEJA. A partir disso, o Coletivo Parabelo deu continuidade à criação de aulas de arte com o CIEJA Ermelino Matarazzo, através do desenvolvimento de vídeo aulas de performance em diálogo com o que o historiador de arte estadunidense Bruce Altshuler nomeou como arte por instrução. Para a artista japonesa Yoko Ono, a arte por instrução tem como principal característica a abertura do que ela chama de espaços de respiro: palavras que são poesias, poesias que são pinturas, pinturas que são palavras, pois abrem diálogos rápidos, breves, efêmeros que oxigenam, ventilam, arejam as separações entre os lugares da arte e os lugares do cotidiano. Nesse viés, as vídeo aulas de performance são concebidas a medida em que um professor-performer leva a cabo uma instrução em uma tela, experimentando os elementos discursivos das linguagens videográficas, a fim de acionar uma ação que gera outras ações performáticas no trânsito entre a vida on e offline, conforme abrem espaços tempos de performação que instabilizam as separações estanques entre professor, aula e aluno, bem como, entre arte, obra e espectador. Ao levarmos em conta a concepção de aula de performance preconizada por Denise Rachel, concebida com o intuito de contextualizar, produzir e apreciar a chamada arte da performance a partir de uma aproximação com a abordagem triangular proposta por Ana Mae Barbosa, a ênfase atribuída a uma vídeo aula de performance é no produzir, sem com isso deixar de ter elementos relativos à contextualização e à apreciação de uma ação performática. Desse modo, uma vídeo aula de performance não possui um caráter explicativo e expositivo, mas propositivo, quando se propõe a experimentar o que acontece quando um corpo elabora uma instrução no e pelo próprio corpo, ao acionar a co-presença corporal no compartilhamento do espaço tempo imediato no e pelo fluxo da força da percepção corporal traduzida em formas gestuais, imagéticas, verbais etc. Nesse contexto, o que interessa são as singularidades cognitivas que emergem no e pelo modo como cada corpo conduz suas condutas na relação com uma determinada instrução, ao passo que as vídeo aulas de performance propõem uma atitude crítica diante da dimensão marcadamente instrucional da vida social na designada Sociedade Pedagogizada. Por fim, não custa lembrar que para o artista francês Marcel Duchamp o artista não era nada mais, nada menos que um respirador. Portanto, criamos vídeo aulas de performance a partir de instruções compreendidas como exercícios para respirar  feitos com diversos respiradores, de diferentes partes do mundo, como a própria Yoko Ono, Paulo Bruscky, George Brecht, Lygia Clark,  Alison Knowles, Benjamin Patterson, Cildo Meireles, mas também todas as respiradoras e os respiradores do CIEJA Ermelino Matarazzo. Respiradores que exercitam um ritmo poético ao respirarem com a escola pública, com a educação básica, enquanto ensinam, aprendendo, ainda que por alguns instantes, formas de sair do sufoco.

Coletivo Parabelo