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“Nós sobreviveremos na memória dos outros”

(Vilém Flusser, filósofo, 1920-1991)

 

O que aconteceria se uma aula de arte se transformasse em um espaço tempo para conspiração? Se uma aula de arte abrisse espaços tempos para respirarmos umas/es/uns com as/es/os outras/es/os; para conspirarmos juntas/es/os em memória das vidas asfixiadas até a morte pela crise sanitária de Covid-19, agravada pela crise sociopolítica e econômica gestada pelo governo Jair Bolsonaro (PL) no Brasil? De alguma forma, questões como estas já estavam presentes na ação Respirações, realizada pelo Coletivo Parabelo com o Cieja Ermelino Matarazzo (ZL/SP), durante as atividades escolares remotas desenvolvidas ao longo de 2020. Subsequentemente, no decorrer de agosto de 2021, a artista, professora e pesquisadora Flávia Teodoro Alves/@lambebem reperformou uma das séries da ação Respirações, a série Horizonte, ao propor uma substituição dos intitulados Cadernos para Respirar pelo que denominou como Lambes para Respirar – concebidos, confeccionados e colados com as/es/os estudantes do Cieja Rose Mary Frasson (ZN/SP) pelas ruas do entorno da referida unidade escolar. A partir disso, o Coletivo Parabelo criou a ação Conspirações, ao propormos maneiras de conspirarmos coletivamente o processo dos lutos, das dores, dos pesares, ainda que diante das tentativas de normalização da perda de tantas vidas, especificamente neste momento em que as esferas governamentais, pautadas por demandas de âmbito econômico, promovem a chamada fase de reabertura, a exemplo da retomada das aulas presenciais. Para tanto, a ação Conspirações prevê a realização de uma aula performática duracional nomeada "Cenotáfios", ao propor um espaço tempo de escuta dos relatos enlutados das/des/dos estudantes, professoras/es e funcionárias/es/os do Cieja Ermelino Matarazzo, com a finalidade de não ignorarmos, de não esquecermos nossos mortos. Adiante, tais relatos assumirão a forma de lambes tanto em referência aos Lambes para Respirar, quanto em alusão a uma prática de cunho estético e político realizada na década de 1980 pelas ruas da Argentina, denominada Siluetazos. Trata-se da confecção de silhuetas de desaparecidos políticos do período ditatorial no país, as quais eram coladas pelos muros da cidade de Buenos Aires como uma maneira de anúncio poético, de denúncia política, de exigência de uma espécie de prenúncio ético. Dessa forma, a ação Conspirações almeja evidenciar a presença da ausência dos entes queridos da comunidade escolar do Cieja Ermelino Matarazzo, ao tentar promover uma certa justiça simbólica em memória de quem foi asfixiada/de/do, sufocada/de/do, estrangulada/de/do pelas políticas da morte no país irrespirável – frente as quais continuaremos  buscando conspirar juntas/es/os ao fazer de uma aula de arte um modo de reivindicar o que o filósofo camaronês Achille Mbembe denominou como  Direito Universal à Respiração.